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As décadas de 50, 60 e meados de 70 na
América e no resto do mundo, foram marcadas por intolerância e conflitos
raciais que dividiram a América entre uma maioria privilegiada (brancos
ricos) e uma minoria massacrada, humilhada e acuada em guetos sujos e
sombrios (os negros miseráveis). A música e a religião eram os únicos
meios que estas pessoas tinham de expressar os seu sentimentos e faziam
isto melhor do que ninguém!
O que conhecemos hoje como Rock’n’Roll, já
existia muitos anos antes dos primeiros rockers brancos surgirem nas
paradas de sucesso. O Blues e o Rhythm & Blues já eram manias entre a
juventude negra desde o final da década de 30 e começo de 40, porém só
eram tocadas em rádios especializadas (haviam muito poucas) em “race
music” e poucos brancos tinham acesso a estas gravações. A Sun Records
(a primeira gravadora de Elvis) era uma das poucas e melhores gravadoras
deste ritmo que mais tarde recebeu o nome de Rock’n’Roll (que nada mais
era do que Blues e/ou Rhythm & Blues cantados por brancos).
Os negros eram obrigados a morar em
bairros separados, a estudar em escolas reservadas só para eles (sempre
inferiores as dos brancos) e uma série de outras humilhações e privações
que pouco se diferenciavam da época em que eram escravos. Estas
dificuldades também eram sentidas por imigrantes e por uma parte da
população branca que também viviam na pobreza e entre esses uma família
de East Tupelo, os Pressley (sim, com dois “s”).
Elvis nasceu e cresceu entre a miséria e a
pobreza. Nasceu numa “shotguns shacks”, uma casa tão pequena que se
alguém desse um tiro na porta de entrada o projétil atravessaria toda a
casa e sairia pela porta dos fundos sem acertar ninguém. Normalmente
estas casas tem três (03) cômodos, porém a dos Pressley’s tinham apenas
dois (02). A pobreza acabava derrubando as barreiras segregacionais,
pois a fome e a humilhação eram sentidas na pele por ambas as raças e
Elvis nunca se esqueceu disso.
Durante toda a sua vida, Presley nunca
negou a sua origem. Elvis era odiado na década de 50 por levar para
dentro das casas e do “mundo dos brancos” aquela música “do diabo” (isto
é, “de preto”) e suas influências e mensagens. A critica censurava-o
dizendo que “soava negro demais”. Em sua primeira entrevista numa
emissora de rádio, após a execução “That’s All Right, Mama” (um blues
composto e gravado em 1946 por Artur Big Boy Crudup) sua primeira
gravação comercial, o astuto locutor teve o cuidado de perguntar onde
Elvis estudou, numa manobra para dizer sutilmente que Elvis era branco,
já que a “Humes High School” (escola onde Elvis se formou) não admitia
alunos negros.
Elvis era o branco com alma de negro e
assim podia cantar a música daquele povo oprimido em lugares que um
negro jamais imaginaria pisar um dia! Este foi um marco em toda a
carreira de Elvis. Quem imaginaria em pleno ano de 1968 um bailarino
negro se apresentando numa das principais emissoras americana e em
horário nobre juntamente com outras moças negras entoando e dançando
gospel music (lembre-se, 1968 foi o ano em que Martin Luther King foi
assassinado exatamente por defender, entre outros, este direito de
igualdade)?!? Pois bem, isto aconteceu no “The Comeback Special’68” pela
NBC e teve 98% de audiência! Este show marcou a volta de Presley aos
palcos e toda a platéia foi selecionada “a dedo”, e foram escolhidas
belas garotas para ficarem nas primeiras filas, bem próximo ao palco e
entre elas haviam moças negras. E as “Sweet Inspirations”, grupo vocal
formado por negras que acompanharam Elvis de 1968 até a sua morte em
1977?!? Elas se apresentavam e se hospedavam em hotéis luxuosos onde
negros, no máximo, eram faxineiros e nunca seriam aceitos na platéia ou,
menos ainda, como hospedes! (vide o Show “Aloha From Hawaii” de 1973,
transmitido ao vivo de Honolulu para vários países do mundo, totalizando
mais de Um Milhão de pessoas).
Você pôde achar que estou exagerando ou
“viajando”, mas prefiro ficar com as palavras de James Brown, o “king”
do Soul e do Funk: “Ele (Elvis) ensinou a América branca a se ajoelhar”
ou nas palavras do próprio Elvis: “Minhas canções exprimem doses de
inconformismo e isso eu transmito por intermédio do meu corpo. Na
verdade é a minha natureza se exprimindo totalmente. Quem tanto se
preocupa com o balançar de minhas pernas, deveria parar, olhar e fazer
alguma coisa pelos pobres que quando balançam os seu corpos é, muitas
vezes para se aquecer e conseguir enganar o frio...”
Pense nisso!!! |