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Elvis e Elvinho: O aniversário do roqueiro na Memphis paulistana
Escrita por: Ana Paula Sousa
Fonte: Carta Capital
19 de Janeiro de 2005 - Ano XI - Número 325

Quem foi que disse que Memphis não é aqui? Yes, nós temos Memphis. E temos Elvis – não um, mas vários. Deste lado do hemisfério, no dia em que completaria 70 anos, o rei do rock ganhou uma festa regada a hambúrguer, rock’n’roll e sonhos de celebridade. Replicado e venerado no mundo todo, Elvis Presley, natural de Memphis, no estado do Tennessee, é também brasileiro. Foi isso o que descobriu quem compareceu ao seu aniversário, celebrado no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo:

– O Elvis tem muito de brasileiro. Sua espontaneidade, seu jeito de falar com os fãs... O Brasil não é só samba, futebol e mulher. É Elvis também.

Quem rabisca tons verde-amarelos sobre os trajes do ídolo é Álvaro Martins, de 25 anos, o Elvinho, cover que se apresenta com o bordão Remember the King! Elvinho foi um dos cinco intérpretes brasileiros convidados para animar a festa engendrada pela lanchonete Memphis Original Burger, no sábado 8. O dono da casa, Renato Noschesi, vai ainda mais longe que seu convidado:

– O Elvis foi um cara que lutou. O brasileiro é um povo que luta também. Tem isso de parecido. Se a gente se espelhar nele, a gente tem tudo para virar um grande país.

Imbuído de um ar reflexivo, com óculos escuros nas mãos e correntes e anéis a perder de vista, Elvinho não só não se abate com o possível despropósito da tese como procura destrinchá-la:

– Veja bem, até não estamos muito perto dos Estados Unidos, mas não podemos deixar de comemorar. É muito importante o Brasil dar sua contribuição para a festa do Rei. Eu, com a minha idade, nunca vi um evento desse nível. Para nós, covers, também é muito gratificante. E acho que o Elvis estaria muito contente se ele pudesse estar aqui.

Ou não. Se olhasse para os espelhos brasileiros, Elvis, provavelmente, refletiria, por exemplo, sobre a técnica por trás dos penteados de seguidores como Elvinho:

– Não é peruca nem nada. Veja, o cabelo é meu. É um cabelo que tem que cuidar um pouco, fazer uma escova, mas que é um cabelo que já faz parte de mim. É quase natural.
E Elvinho é quase Elvis:

– Minha profissão é essa. Eu viajo o Brasil levando o nome do Rei. Procuro me vestir como ele, tenho o modo de vida dele. Eu não falo inglês, porque não sou americano, mas pronuncio bem as músicas. O Elvis era mais experiente que eu, até porque ele era mais velho. Mas algumas coisas a gente se baseia no Rei. O lance da humildade é o que eu mais admiro. Procuro ser humilde que nem ele. E carinhoso também.

Nota-se. Após a entrevista, Elvinho sapeca um beijo na repórter e, de olho no bloquinho, arrisca:

– Escuta, vai passar onde isso aí? É algum canal?

O desejo de aparecer, de ser uma celebridade, mesmo que instantânea, é um dos pontos comuns a todos os presentes. De fãs a covers, não havia quem deixasse de esfregar as mãos diante da possibilidade de aparecer na “mídia”. E houve quem preparasse até algumas iscas de atração: o italiano Giacomo Favretto, 51 anos, parou em frente à lanchonete com um Chevrolet Impala, de 1958, e Maria Klein, de 65, andava com a carteirinha do fã-clube de Elvis, autenticada pela RCA Victor, em 1958, comprovando que a paixão é antiga:

– Existe homem mais lindo que o Elvis?

Depois de surgirem algumas câmeras de tevê, então, não houve quem segurasse a verborragia dos freqüentadores e, especialmente, das estrelas. Com a luz do refletor em sua direção, o cantor Gilberto Augusto, 30 anos, resumiu, de um fôlego só, toda a carreira:

– O primeiro filme que eu assisti foi Saudades de Um Pracinha (de 1960, com Elvis), eu tive a minha primeira banda aos 15 anos e já ganhei vários concursos, um do Raul Gil. Fui o único brasileiro a fazer um show em Memphis, sempre faço comerciais para a tevê. É assim. Eu vivo disso. Faço tanto shows para empresas quanto para casamentos, moda, 15 anos e 90% do meu guarda-roupa é Elvis. Ando na rua assim, como você está me vendo.

À fala, segue-se nova apresentação: You ain’t nothin’ but a

hound dog,/ cryin’ all the time./ You ain’t nothin’ but a hound dog… Mas nem o hit rapta a atenção da mulher que, mais do que por Elvis, está fascinada é pela repórter da Globo, de quem até foto tira. Desconfiada do flagra, justifica-se para a pessoa ao seu lado:

– Deve ser o máximo ser repórter, né? ...Eu e minha filha nem gostamos tanto da música de Elvis, sabe? A gente gosta dele mesmo como pessoa. Ele era um cara super-humilde, superfamília.

Vestido com uma camiseta em que se lê Eles estão querendo matar o rei, o jovem de óculos Ray-ban lança um olhar enviesado sobre a mulher. Ele encolhe então os ombros, com pouco caso, e, ao ver a reportagem de CartaCapital, dispara:

– Opa! Tudo bem? Eu sou o famoso inimigo da BMG.

Sorridente e espontâneo, o rapaz diz ser “mais conhecido” como Leovis e, com sua fala rápida, atropela uma possível pergunta e destrincha as razões e os desdobramentos da querela que o faz se auto-intitular “inimigo da BMG”:

– Você sabe que a BMG tirou de catálogo todos os CDs do Elvis e colocou no lugar deles uma coletânea com todas as número 1? É, número 1, as de maior sucesso. Daí a gente protestou. Não dava. Em agosto de 2003, eles colocaram de novo os CDs no catálogo.

Só então, num respiro que interrompe o discurso impetuoso, é possível descobrir que seu nome é Leonardo Moreno, tem 26 anos, é publicitário e comanda um “movimento na luta pelo material raro”:

– Se você, vamos supor, me perguntar “onde eu encontro tal fita”, eu digo. Não é CD pirata. É material raro. É como diz a minha camiseta, Estão querendo matar o rei. Tem de fazer uma correria pra isso não acontecer. E eu, com esse movimento, graças a Deus, já tô ficando famoso.

Na Memphis brasileira, basta topete para virar celebridade.

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