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Quem foi que disse que Memphis não é aqui?
Yes, nós temos Memphis. E temos Elvis – não um, mas vários. Deste lado
do hemisfério, no dia em que completaria 70 anos, o rei do rock ganhou
uma festa regada a hambúrguer, rock’n’roll e sonhos de celebridade.
Replicado e venerado no mundo todo, Elvis Presley, natural de Memphis,
no estado do Tennessee, é também brasileiro. Foi isso o que descobriu
quem compareceu ao seu aniversário, celebrado no bairro do Itaim Bibi,
em São Paulo:
– O Elvis tem muito de brasileiro. Sua espontaneidade, seu jeito de
falar com os fãs... O Brasil não é só samba, futebol e mulher. É Elvis
também.
Quem rabisca
tons verde-amarelos sobre os trajes do ídolo é Álvaro Martins, de 25
anos, o Elvinho, cover que se apresenta com o bordão Remember the
King! Elvinho foi um dos cinco intérpretes brasileiros convidados
para animar a festa engendrada pela lanchonete Memphis Original Burger,
no sábado 8. O dono da casa, Renato Noschesi, vai ainda mais longe que
seu convidado:
– O Elvis foi um cara que lutou. O brasileiro é um povo que luta também.
Tem isso de parecido. Se a gente se espelhar nele, a gente tem tudo para
virar um grande país.
Imbuído de um ar reflexivo, com óculos escuros nas mãos e correntes e
anéis a perder de vista, Elvinho não só não se abate com o possível
despropósito da tese como procura destrinchá-la:
– Veja bem, até não estamos muito perto dos Estados Unidos, mas não
podemos deixar de comemorar. É muito importante o Brasil dar sua
contribuição para a festa do Rei. Eu, com a minha idade, nunca vi um
evento desse nível. Para nós, covers, também é muito gratificante. E
acho que o Elvis estaria muito contente se ele pudesse estar aqui.
Ou não. Se olhasse para os espelhos brasileiros, Elvis, provavelmente,
refletiria, por exemplo, sobre a técnica por trás dos penteados de
seguidores como Elvinho:
– Não é peruca nem nada. Veja, o cabelo é meu. É um cabelo que tem que
cuidar um pouco, fazer uma escova, mas que é um cabelo que já faz parte
de mim. É quase natural.
E Elvinho é quase Elvis:
– Minha profissão é essa. Eu viajo o Brasil levando o nome do Rei.
Procuro me vestir como ele, tenho o modo de vida dele. Eu não falo
inglês, porque não sou americano, mas pronuncio bem as músicas. O Elvis
era mais experiente que eu, até porque ele era mais velho. Mas algumas
coisas a gente se baseia no Rei. O lance da humildade é o que eu mais
admiro. Procuro ser humilde que nem ele. E carinhoso também.
Nota-se. Após a entrevista, Elvinho sapeca um beijo na repórter e, de
olho no bloquinho, arrisca:
– Escuta, vai passar onde isso aí? É algum canal?
O desejo de aparecer, de ser uma celebridade, mesmo que instantânea, é
um dos pontos comuns a todos os presentes. De fãs a covers, não havia
quem deixasse de esfregar as mãos diante da possibilidade de aparecer na
“mídia”. E houve quem preparasse até algumas iscas de atração: o
italiano Giacomo Favretto, 51 anos, parou em frente à lanchonete com um
Chevrolet Impala, de 1958, e Maria Klein, de 65, andava com a
carteirinha do fã-clube de Elvis, autenticada pela RCA Victor, em 1958,
comprovando que a paixão é antiga:
– Existe homem mais lindo que o Elvis?
Depois de surgirem algumas câmeras de tevê, então, não houve quem
segurasse a verborragia dos freqüentadores e, especialmente, das
estrelas. Com a luz do refletor em sua direção, o cantor Gilberto
Augusto, 30 anos, resumiu, de um fôlego só, toda a carreira:
– O primeiro filme que eu assisti foi Saudades de Um Pracinha (de
1960, com Elvis), eu tive a minha primeira banda aos 15 anos e já
ganhei vários concursos, um do Raul Gil. Fui o único brasileiro a fazer
um show em Memphis, sempre faço comerciais para a tevê. É assim. Eu vivo
disso. Faço tanto shows para empresas quanto para casamentos, moda, 15
anos e 90% do meu guarda-roupa é Elvis. Ando na rua assim, como você
está me vendo.
À fala, segue-se nova apresentação:
You ain’t nothin’ but a
hound dog,/ cryin’
all the time./ You ain’t nothin’ but a hound dog…
Mas nem o hit rapta a atenção da mulher que, mais do que por
Elvis, está fascinada é pela repórter da Globo, de quem até foto
tira. Desconfiada do flagra, justifica-se para a pessoa ao seu lado:
– Deve ser o máximo ser repórter, né? ...Eu e minha filha nem gostamos
tanto da música de Elvis, sabe? A gente gosta dele mesmo como pessoa.
Ele era um cara super-humilde, superfamília.
Vestido com uma
camiseta em que se lê Eles estão querendo matar o rei, o jovem de óculos
Ray-ban lança um olhar enviesado sobre a mulher. Ele encolhe então os
ombros, com pouco caso, e, ao ver a reportagem de CartaCapital,
dispara:
– Opa! Tudo bem? Eu sou o famoso inimigo da BMG.
Sorridente e espontâneo, o rapaz diz ser “mais conhecido” como Leovis e,
com sua fala rápida, atropela uma possível pergunta e destrincha as
razões e os desdobramentos da querela que o faz se auto-intitular
“inimigo da BMG”:
– Você sabe que a BMG tirou de catálogo todos os CDs do Elvis e colocou
no lugar deles uma coletânea com todas as número 1? É, número 1, as de
maior sucesso. Daí a gente protestou. Não dava. Em agosto de 2003, eles
colocaram de novo os CDs no catálogo.
Só então, num respiro que interrompe o discurso impetuoso, é possível
descobrir que seu nome é Leonardo Moreno, tem 26 anos, é publicitário e
comanda um “movimento na luta pelo material raro”:
– Se você, vamos supor, me perguntar “onde eu encontro tal fita”, eu
digo. Não é CD pirata. É material raro. É como diz a minha camiseta,
Estão querendo matar o rei. Tem de fazer uma correria pra isso não
acontecer. E eu, com esse movimento, graças a Deus, já tô ficando
famoso.
Na Memphis brasileira, basta topete para virar celebridade. |